Sinópse
e Concepção
O espetáculo vai
se construir a partir de uma estrutura de ferro em forma de torre,
como metáfora de diversas construções e estruturas
físicas e sociais, e um ser que estará aprisionado
a este sistema reticular. A partir de uma ebulição
interna percebe-se perdido de si mesmo, e do todo o sublime que
o mundo e a natureza possam lhe oferecer. Esses obstáculos
apreendidos no caminhar de toda sua vida, a partir de agora, será
seu grande desafio e seu grande rompimento. Se libertar de todo
o sistema impregnado no cerne do seu ser, nem que para isto tenha
que cair em pleno caos. O único caminho será voltar
as origens, se desprendendo das máscaras e carcassas impostas
e adquiridas desde que nasceu. Buscando um novo tempo e um novo
prisma para sobreviver, se alimentado daquela luz que nos resta
ao final do túnel.
A concepção coreográfica para dar corpo a esta
proposta foi encaminhada a partir de uma pesquisa que envolve diversas
áreas da movimentação corporal (dança
contemporânea, moderna, capoeira, ginastica olímpica,
acrobacia, tecido, rappel, técnicas aéreas e teatro)
em pró de uma fusão sincrética e dramática
que consiga refletir a crises do sujeito universal contemporâneo.
Síntese do Projeto
O espetáculo de
dança A TORRE, criado, dirigido e protagonizado por Joca
Vergo, representam de forma cênica, subliminar e contemporânea
o homem do século XXI e a relação que ele mantém
com padrões e estereotipes preestabelecido e ditado pela
sociedade, transformando-o em um prisioneiro de um comportamento
que, muitas vezes, não condiz com sua real vontade. E, do
alto desta maneira de viver - usando como metáfora e como
referencial uma estrutura com o formato de uma torre - entre quedas,
mergulhos e tentativas de emergir de toda essa mediocridade este
homem luta diariamente para libertar-se e despir-se de todas as
máscaras e carcaças que disfarçam sua verdadeira
essência e intenções. Num momento globalizado
e absolutamente competitivo que vive, este espetáculo - destinado
não somente ao público em geral mas também
a um público eclético oriundo de áreas profissionais
como a psiquiatria, psicologia, medicina - desperta na platéia
a possibilidade de novos “movimentos”, de novas condutas
que faça este homem deste novo século perceber-se
como indivíduo que pode perfeitamente relacionar-se com o
mundo, com o mercado de trabalho, com sua família e amigos
de forma harmoniosa e feliz, sem máscaras, sem subterfúgios.
Criado de forma quase intuitiva por seu autor, A TORRE coincidentemente
representa uma carta do tarô que, segundo bibliografia, retrata
a destruição de antigos padrões, a imagem das
fachadas socialmente aceitáveis que adaptamos para esconder
nossa “fera” interior e, mais do que isso, prenuncia
a “quebra ou o rompimento de formas e estruturas vigentes”,
condicionadas à atitude do indivíduo frente às
dificuldades.
Portanto, A TORRE de Joca Vergo, através da dança
representa o movimento interativo, o gesto, a inquietude do homem
com relação ao mundo, à sociedade e a sua luta
por resgatar sua verdadeira identidade enquanto cidadão que,
além de ser íntegro e livre, quer também ser
feliz.
Justificativa
O investimento aplicado
ao espetáculo A TORRE justifica-se plenamente por levar ao
palco uma arte tão expressiva, tão importante quanto
à dança não apenas em seu sentido cênico,
estético. E sim, remetendo-lhe a possibilidade de, através
de seus movimentos, transformar-se em instrumento de mudança,
de conscientização comportamental propondo a quebra
de estereotipo, a derrubada de máscaras e de padrões
que aprisionam o homem. Conteúdos que pouco têm sido
levado aos teatros e casas de espetáculo de Porto Alegre
e que, em função desta leitura social, têm todas
as condições de transformar-se em sucesso de público
e crítica. O que, sem dúvida alguma, remeterá
à própria entidade-apoiadora toda a seriedade e credibilidade
impressas no projeto.
Objetivos
Com a aplicação
de investimentos e a montagem de A TORRE, objetiva-se:
- Levar a diversas platéias,
tanto da capital quanto do interior, uma estética diferente,
relacionada à dança, onde o artista, o bailarino transita
pelo palco como se fosse o protagonista de um monólogo shakesperiano
interagindo com uma estrutura no formato de uma torre e, através
desta metáfora, questiona-se sobre o ser e o não ser
do homem no século XXI;
- Formar um nº cada
vez maior de público a estes tipos de espetáculos,
favorecidos pela atualidade do assunto e pela identificação
que o protagonista projeta a cada indivíduo que o assiste;
- Captar a atenção
dos jovens que, inseridos em um mundo altamente competitivo e globalizado,
muitas vezes acham-se desorientados sobre qual a direção
(profissão, ética, comportamento) seguir;
- Mobilizar a sociedade
médica, na área da psiquiatria, psicologia e outras
sociedades/instituições alternativas como a holística,
promovendo encontros e debates sobre o comportamento e a ética
deste novo século após cada espetáculo;
Criação Cenografia
A composição
cênica cara carateriza-se pela austeridade simplicidade e
abstração. Ela consta de uma torre como elemento protagônico
que representa as estruturas estabelecidas e reproduzidas socialmente.
Trata-se de uma torre móbil, de estrutura metálica
tubular desmontável 2,50 metros de altura; na parte superior
possui um mini palco e na parte inferior elementos para se pendurar
e executar outros tipos de movimentos. Placas de aço polido
serão pendurados para contornar o fundo do palco. Essas folhas
de metal serão tencionadas do teto e do chão. E o
abatimento do corpo do bailarino sobre estas pranchas dará
um efeito vibratório sonoro e visual de rebote, representando
a impossibilidade de fugir dos horizontes que o sistema desenha
para seus filhos dominados.
O resto dos materiais cênico será equipamentos e infra-estrutura
mínima (roldanas, mosquetão, elásticos, etc.)
para possibilitar a movimentação aérea por
parte do bailarino.
Criação Figurino
O figurino foi concebido
como uma roupagem a-temporal e não figurativa, de um ‘ser’
envolvido em problemáticas existenciais possíveis
em qualquer tempo e espaço. Embora isso tenha uma sutil referencia
a estéticas futuristas porque é aí onde se
cristalizara a crise do sujeito. Será extravagante e excêntrico,
feito de um tecido que reflete as luzes, terá intensidade
luminosa com efeitos. A cor será prateada e os apliques e
suplementos (para possibilitar a movimentação aérea)
pretos. Está vestimenta será desprendida conforme
o andamento do espetáculo, onde terão outras por baixo,
mais básica ,como short e camiseta, joelheira e suporte .
Criação Luz
A luz criará a ambientação
necessária para alguém enclausurado num lugar restrito
e pequeno em cima de uma estrutura de ferro, que com o tempo começa
abranger mais e mais o espaço cênico até toma-ló
por completo, conforme o bailarino vai se desvencilhando da estrutura,
assim saindo de uma estrutura obscura e reprimida com uma luz âmbar
nas laterais, formando corredores e um luz em cima da torre com
foco branco, depois passando para um branco total com 50% de potencial
indo para um contra azul, usando diagonais no chão brancas
para criar sombras da estrutura e do bailarino em cima da torre
para se referir aos seus próprios fantasmas. Quando o personagem
se libertar de tudo, entra um contra azul com um foco na lateral
esquerda do palco sobre um tecido criando um contraste de intensidade
dramática para esse momento de caráter espiritual.
Ficha Técnica
Criação/
Direção e Coreografia: Joca Vergo
Elenco: Joca Vergo
Voz: Giovanei Bragoni
Teclado: Maninha Pedroso
Direção de Arte/ Cenário:
Pablo M. Cuello
Figurino: Joca Vergo
Assistente de Coreografia: Marilice
Bastos
Iluminação: Fernando
Ochoa
Direção de Produção:
Roze Paz
Trilha Sonora Original: Maninha Pedroso
Divulgação: Ana Albuquerque |
Crítica
Num cenário em permanente construção,
avançando conforme o fluxo e refluxo das conduções
das políticas culturais, a dança em nosso Estado
mantém-se viva e atenta à dinâmica das inovações
dos grandes centros exportadores de tendências. Das manifestações
artísticas aqui praticadas, pode-se dizer que esta é
a menos estimulada; fato que, em termos, a coloca ainda em caráter
incipiente. No entanto, um olhar atento a um passado recente faz
surgir uma constelação de bailarinos, dos quais
alguns atuantes em instâncias internacionais, construtores
de uma carreira sólida e reconhecida. De fato, alguns encontram
aqui um terreno profissional insustentável, na medida que
o mercado de dança insiste em ser tímido. Outros
ainda, fazem carreira fora e voltam para dar continuidade ao processo
da linguagem coreográfica e técnica, atuando como
professores e coreógrafos. Há os que alcançam
significante repercussão profissional no eixo cultural
do país (SP e RJ), absorvem novas possibilidades de expressarem-se
pela dança e voltam para cá com o mesmo propósito,
qual seja o de fortalecer nossa frágil porém sempre
fértil paisagem artística.
Nessa miríade, temos na figura de Joca Vergo a personificação
da multiplicidade de facetas das quais nossos heróicos
bailarinos são submetidos ao lançarem-se nessa árdua
tarefa que é a prática da dança. O trabalho
incansável que Joca tem realizado, desde o início
de sua trajetória, nos é mostrado em seus últimos
espetáculos. Tendo como base as pesquisas corporais de
Martha Graham, a tradição do ballet clássico
e as tendências contemporâneas, Joca tem potencializado
a dança como linguagem que dialoga com outros estratos
da arte. Em seu último espetáculo Fragmentos Personários
percebemos a miscigenação de recursos interpretativos
explorados em sua coreografia, na medida em que é incorporado
à dança diferentes propostas até pouco tempo
impensáveis, resultando em pura potência plástica
e poética. Em Fragmentos, a figura do palhaço, elemento
recorrente na historiografia da evolução do espetáculo,
serve de eixo temático e via de acesso para que o teatro
possa ser muito bem incorporado aos elementos de caráter
coreográfico. Esse personagem filosofa sobre questões
cruciais da existência humana, e o faz de forma emocional
ao propor indagações ao público que são
potencializadas pela inserção da mágica como
recurso dramático. Para além do teatro, da filosofia
e da mágica, temos também os bailarinos que apresentam
coreografias entremeadas pelo uso das técnicas de tecido
e rapel. As danças em conjunto, solos e pas des deux –
é importante salientar que Joca coreografa, dirige e também
é a única figura masculina em cena que dança
– ganham força e riqueza de expressão pelos
apropriados aéreos que compõe a trama do espetáculo.
As bailarinas da Cia. de Dança Joca Vergo surpreendem em
suas entradas inesperdas, que podem acontecer tanto em um monociclo
ou numa espécie de corte ao palhaço, nos fazendo
lembrar, por vezes, das figuras mitológicas encontradas
na pintura renascentista. Como não bastassem tantos cruzamentos,
a música tem trilha especialmente composta e é executada
ao vivo, por um pequeno conjunto.
Numa das primeiras oportunidades em que Joca mostrou Fragmentos
em Porto Alegre, no saguão de entrada da Faculdade de Ciências
Médicas de Porto Alegre, estava contido ali a adequação
do espetáculo ao contexto arquitetônico do prédio.
Sua pesquisa transita num elevado patamar investigativo, pois
faz condicionar seu trabalho coreográfico ao espaço
físico eleito para suas apresentações. O
espetáculo nunca será o mesmo. Em cada espaço
de apresentação surgem outras possibilidades de
interface da sua coreografia com o entorno. Fragmentos torna-se
constante desafio de adequação. A experiência
em palco italiano, quando mostrado em outro momento no Teatro
Renascença, fez redimensionar as investigações
de Joca no que concerne ao uso do espaço. Não há
como negar que o efeito estético do espetáculo nas
dimensões tradicionais do espaço cênico ocidental
revela uma pulsão contagiante, equilíbrio permanente
e reforço no potencial dramático que permeia Fragmentos.
É de se destacar o reforço que a presença
de outro bailarino em cena oferece ao espetáculo, pois
é dado maior visibilidade aos pas des deux em rappel de
parede, tecidos e conjunto coreográfico.
Sustentada em sua constante investigatição, a carreira
de Joca Vergo sintetiza a viabilidade do corpo enquanto elemento
condicionante da expressão técnica e dramática
das coisas da vida. Ele faz da dança seu instrumento de
discurso cênico, fruição estética,
estímulo aos sentidos e manifesto constante de sua condição
de bailarino e coreógrafo numa cidade que ainda não
descobriu o real valor da dança. O trabalho de Joca é,
sobretudo, uma resistência ao inócuo mercado de dança,
ao desinteresse das políticas públicas para as artes
e, por conseguinte, da falta de conhecimento que assola o grande
público gaúcho sobre o fazer artístico.
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